Estou feliz que minha mãe morreu - Resenha crítica - Jennette McCurdy
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8 leituras ·  4 avaliação média ·  3 avaliações

Estou feliz que minha mãe morreu - resenha crítica

Biografias & Memórias

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 9786587638829

Editora: nVersos Editora

Resenha crítica

Você já fingiu amar um presente para não estragar o dia de alguém? Guarde essa sensação por um instante. Agora imagine que ela é o eixo da sua vida inteira: cada gosto seu escondido, cada vontade sua engolida, porque a alegria de outra pessoa parece mais importante que a sua própria existência.

No sexto aniversário, Jennette McCurdy recebeu uma roupa que detestava. Ela sorriu, abraçou a mãe e disse que era perfeita. Depois, na hora de assoprar as velas, fez o único pedido que faria por mais de quinze anos: que a mãe continuasse viva um ano mais. O câncer de mama em estágio quatro havia chegado quando Jennette tinha dois anos. A doença era contada e recontada em casa como uma lenda familiar — e a menina cresceu acreditando que o desejo dela, sozinho, segurava aquela vida no lugar.

Este microbook acompanha o que acontece quando uma criança é educada para ser o sonho de outra pessoa. Tem set de filmagem, tem fama nacional, tem dinheiro. Tem também contagem de calorias aos onze anos, vozes na cabeça, banhos invasivos e um funeral onde a filha não consegue cantar. E tem, no fim, algo raro: uma mulher que desmonta o altar onde colocou a própria mãe e descobre, aos vinte e poucos, o que ela mesma quer da vida.

O desejo que ela pedia todo aniversário

A mãe de Jennette, Debra, queria ter sido atriz famosa. Não foi. Enquanto escovava o cabelo da filha, contava as oportunidades perdidas e concluía sempre do mesmo jeito: Jennette teria a vida que ela não teve. Não havia pergunta ali, apenas uma resposta certa a ser dada.

O primeiro teste foi um terror. Jennette ficou dividida entre as instruções do diretor de elenco e os gestos da mãe. Saiu de lá como figurante — e a mãe comemorou como se fosse estrelato, sem saber que existia um degrau acima. No set de "Arquivo X", Jennette interpretou uma criança sufocando numa câmara de gás e foi escolhida para um close. Para Debra, aquilo era o começo de tudo. Em casa, o cenário era outro: uma casa alugada e entupida de objetos acumulados desde a doença, brigas constantes, e uma noite em que a mãe pegou uma faca de cozinha e expulsou o pai. Jennette, ainda tremendo, foi consolar a mãe.

No teste com a agente Barbara Cameron, o irmão Marcus foi considerado carismático. Jennette, sem carisma. A mãe implorou seis meses de experiência e conseguiu, com a condição de aulas de atuação. Nas aulas, ela era a única mãe autorizada a assistir, dirigindo a filha da plateia. Depois de uma audição, foram tomar sorvete. Jennette pediu um sabor novo. A mãe ficou triste, disse que a filha estava crescendo. Jennette voltou atrás na hora e pediu o sabor de sempre.

A fome ensinada como prova de amor

Debra decretou que Jennette era sua verdadeira melhor amiga. Ser a pessoa mais próxima da mãe virou o propósito da menina. Qualquer afeto que escapasse daquele casulo era punido. Num dia raro, o pai a levou de bicicleta à aula de dança, pararam para tomar um smoothie e ela esqueceu a aula de atuação. Em casa, a fúria da mãe transformou aquele passeio leve em crime.

A carreira, enquanto isso, era feita de migalhas. Jennette compara Hollywood a um namorado ruim: promessas, retornos de audição, quase nunca o papel. Na espera de um teste importante, ela começou a ouvir uma voz que ditava rituais e prometia o papel em troca. Ela achou que era o Espírito Santo. Era transtorno obsessivo-compulsivo. O avô percebeu e sugeriu terapia; a mãe reagiu com raiva e disse que a filha era perfeita. No currículo infantil, a mãe insistiu que a habilidade "chorar sob comando" aparecesse em negrito — e Jennette chorava imaginando os irmãos mortos.

Foi o avô quem disse a única frase humana daquela casa: uma garotinha não deveria carregar a família nas costas. Ele lhe deu um enfeite de antena do personagem Mike Wazowski e pediu que ela lembrasse de se divertir. Quando Jennette escreveu seu primeiro roteiro, a mãe reagiu com inveja e alertou que escritores engordam e se vestem mal. O roteiro foi escondido. Aos onze anos, ao notar os seios crescendo, a mãe revelou o "segredo" para não crescer: contar calorias. As duas começaram juntas.

A fama chegou e trancou a porta

A igreja Mórmon tinha sido o refúgio de Jennette — o lugar organizado no meio do caos. As audições foram comendo os domingos, e a família virou o que na comunidade chamavam de inativa. Em casa, a intimidade desapareceu por completo: a mãe insistia em dar banho na filha até os dezessete anos e fazia nela "exames" de mama e genitais, batizados de exame de bumbum da frente, alegando procurar caroços de câncer. Para atravessar aqueles minutos, Jennette saía do próprio corpo e se imaginava na Disneylândia.

Aos quatorze, veio "iCarly". Primeira vez como atriz fixa de uma série, cestas de presentes no camarim — das quais a mãe liberou um pedaço de melão. A ironia era cruel: sua personagem, Sam Puckett, era famosa por devorar comida. O único oxigênio vinha de Miranda Cosgrove, a colega de elenco que falava palavrão, escolhia as próprias roupas e virou amiga dela pelo comunicador AIM, longe dos olhos da mãe.

O resto era desconforto. Uma prova de figurino com biquínis a deixou nauseada. O primeiro beijo da vida aconteceu diante de câmeras e foi repetido até virar tarefa técnica. Num almoço, o homem que criou a série prometeu a Jennette uma série só dela, com uma condição: que ela continuasse a seguir os conselhos dele e se deixasse guiar. A mãe se emocionou. Jennette sentiu medo. Quando menstruou pela primeira vez, no banheiro do estúdio, entendeu aquilo como um fracasso — e decidiu passar fome para voltar a ser criança.

A liberdade que virou compulsão

A greve de roteiristas abriu uma porta inesperada: um contrato com a Capitol Records em Nashville. Ao ouvir sua primeira música, "Not That Far Away", Jennette viu a mãe chorar e entendeu que não era só emoção. O câncer havia voltado. A mãe negou, confessou, e mandou a filha manter a turnê de qualquer jeito, porque Jennette precisava virar estrela da música country.

Rodando shoppings dos Estados Unidos, longe da mãe pela primeira vez, ela sentiu alívio — e, sem nenhum repertório emocional para lidar com aquilo, começou a comer sem freio. Foi ali que a compulsão nasceu. Em um quarto de hotel, teve seu primeiro beijo de verdade, com o líder da banda, e ficou confusa com a naturalidade daquilo. No aeroporto, encontrou uma mãe irreconhecível: magra, careca, sem cílios. A primeira frase que recebeu foi uma crítica ao seu peso. Jennette sentiu alívio: a mãe crítica estava de volta.

Os anos seguintes foram uma sucessão de armadilhas. O criador da série a pressionou a beber álcool num jantar e a massageou enquanto a elogiava. A tentativa de morar sozinha durou uma noite: a mãe doente simplesmente se mudou com ela. Quando paparazzi a fotografaram no Havaí com Joe, um rapaz da equipe de produção, chegou um e-mail chamando-a de vadia e monstro, culpando o namoro pela piora do câncer. Num jantar de aniversário, a mãe pediu que Jennette cantasse "Wind Beneath My Wings" no funeral dela. Semanas depois, parada no trânsito embaixo de um outdoor gigante de "iCarly", viu a mãe convulsionar dentro do carro — enquanto seu próprio rosto sorria lá em cima.

O luto que começou antes da morte

Na semana em que a mãe ficou em coma, Jennette comeu compulsivamente num Burger King e tentou vomitar no banheiro do hospital. Não conseguiu. Sentiu-se duas vezes fracassada. Quando voltou ao quarto, a mãe havia acordado e a primeira coisa que fez foi comentar o que a filha tinha comido. Jennette sorriu: crítica significava vida.

O último dia de gravação de "iCarly" a desmontou, mas não pelo fim da série. Ela chorou de pavor de perder Miranda, porque amizades nascidas dentro de um contexto morrem quando o contexto acaba. Terminou com Joe num restaurante vegano, de forma abrupta, sentindo apenas anestesia. Pouco depois, uma cirurgia simples para reparar um implante mamário jogou a mãe num coma definitivo. Na UTI, Jennette tentou acordá-la anunciando que finalmente chegara aos quarenta quilos, o peso que a mãe sempre quis. Não houve reação. Horas depois, um sussurro inteligível: "Canada Dry". A mãe queria um refrigerante.

Para fugir da espera, Jennette viajou a São Francisco com o amigo Colton e experimentou álcool pela primeira vez. Foi como desligar a voz julgadora dentro da cabeça. A mãe morreu numa cama de hospital montada na sala de casa. Naquela mesma noite, sozinha, Jennette comeu, bebeu e conseguiu vomitar pela primeira vez — e sentiu vitória. No funeral, decidiu não entregar a partitura ao pianista. Subiu ao pódio e desabou num choro gutural, retirada do palco antes de cumprir a promessa.

O silêncio que valia trezentos mil dólares

Na série seguinte, dividindo cena com Ariana Grande, Jennette azedou. Enquanto ela se sentia presa, a colega cantava em premiações e voltava contando que tinha brincado de charadas na casa de Tom Hanks. Quando Ariana faltou ao trabalho e o roteiro justificou a ausência trancando a personagem dentro de uma caixa, algo endureceu de vez.

Foi a fase mais sombria. Ela perdeu a virgindade bêbada, com um homem que não amava, justamente para não se apegar, e vomitou na manhã seguinte. Recebia elogios diários pela aparência enquanto destruía o próprio corpo — prova de que magreza e saúde não são a mesma coisa. Quando descobriu que seu nome havia sido retirado da lista de diretores de um episódio, prometido havia anos, teve ataques de pânico no set. O criador da série já estava afastado dos atores por acusações de abuso.

O programa foi cancelado, e a primeira reação de Jennette foi alegria. Depois vieram os trezentos mil dólares oferecidos pela emissora como "presente de agradecimento". Ela identificou na hora: era dinheiro para calar a boca. Recusou. Aos vinte e dois anos, diante de um bolo de aniversário, percebeu que não tinha mais desejo a pedir — a mãe estava morta, e o propósito dela também. Comeu uma fatia e foi vomitar. Só quando conheceu Steven, num set no Canadá, apareceu algo verdadeiro. E foi ele quem deu o ultimato: ou terapia, ou ele iria embora.

Derrubando o pedestal

Jennette chegou à terapia de Laura por causa do namorado, e Laura disse o que ela não queria ouvir: aquilo só funcionaria se ela quisesse mudar por si. O primeiro mês piorou tudo, porque a negação acabou. Numa premiação, Laura foi junto para impedir a purgação; o resultado foi compulsão nos bastidores e um colapso dentro do carro. A terapeuta então explicou que recuperação tem exatamente essa cara feia.

Vinte e quatro horas sem vomitar, depois de três anos vomitando todos os dias, pareceram uma medalha. Até Laura puxar o fio da mãe. Jennette defendeu a mãe como perfeita. Laura foi direta: quem ensinou a filha a passar fome foi a mãe, e aquilo se chama abuso. Jennette fugiu da sessão, encerrou a terapia por e-mail e purgou. Nos meses seguintes, o chão desabou de vez: o pai que a criou, Mark, revelou que não era seu pai biológico, nem dos irmãos. E Steven, já convertido a um cristianismo delirante e em celibato, confessou acreditar ser a reencarnação de Jesus Cristo — pouco antes de ser internado com suspeita de esquizofrenia.

O fundo do poço foi um voo de quatorze horas até a Austrália, inteiro em compulsão e vômito, no qual a acidez terminou de arruinar um dente, que se soltou. Foi aí que ela procurou Jeff, especialista em transtornos alimentares, e enfrentou a balança. Jeff tirou de casa os alimentos dietéticos, mostrou que compulsão é resposta fisiológica à fome e a fez chorar diante de um prato de espaguete. E ensinou a regra que desarmou tudo: deslizes são normais; o problema é deixar um deslize escorregar até a recaída, porque a vergonha é o que prende a pessoa no ciclo.

A vida além da balança e do personagem

Jennette vendeu a casa que parecia um bom investimento e a fazia infeliz, e foi para um apartamento menor e seguro. Com Miranda e Colton ao lado, foi a um show de jazz para olhar nos olhos do pai biológico pela primeira vez. Ele sabia que ela existia e esperava o contato. O encontro foi curto, decepcionante e necessário. No aniversário de vinte e quatro anos, ela deu a si mesma um presente: jogou a balança no duto de lixo e resistiu à vontade de comprar outra.

O relacionamento com Steven acabou num pedalinho em forma de cisne, em silêncio. Sem ninguém para consertar, não sobrava assunto. Quando a série da Netflix foi cancelada, ela aproveitou a ligação para anunciar o fim de dezoito anos de carreira. Escolheu o anonimato. Na Disneylândia, comemorando com Miranda, ainda purgou uma vez — a recuperação não é linha reta —, mas pensou na mãe, que nunca melhorou, e decidiu ser diferente. Numa festa da indústria, comeu um cookie de chocolate sem culpa, viu Dwayne Johnson do outro lado do salão, não fez esforço nenhum para parecer extrovertida e voltou ao cookie em paz.

Quando Miranda ligou propondo a volta de "iCarly", Jennette recusou. O dinheiro era bom; a saúde mental valia mais. No fim, foi ao túmulo, leu na lápide os adjetivos generosos gravados ali e perguntou em voz alta se a mãe tinha sido alguma daquelas coisas. Nomeou o que ninguém nomeava: narcisista, abusadora, a mulher que empurrou a filha para uma vida que ela nunca quis e lhe ensinou a passar fome. Sentiu falta dela, admitiu a dor, virou as costas e foi embora sabendo que não voltaria.

Notas finais

Ela não se libertou vencendo Hollywood, nem emagrecendo, nem sendo perdoada. Libertou-se demolindo tudo o que a definia: o personagem, o transtorno e a santa inventada em cima do túmulo. Precisou odiar o sonho que lhe foi imposto para descobrir que tinha sonhos próprios. A maior homenagem que você pode fazer a si mesmo é ter a coragem de desapontar quem nunca quis te ver crescer.

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Quem escreveu o livro?

Jennette McCurdy é escritora norte-americana e ex-atriz, conhecida por interpretar Sam Puckett na série da Nickelodeon iCarly (2007–2012) e em seu spin-off Sam & Cat (2013–2014), papel pelo qual venceu quatro Kids' Choice Award... (Leia mais)

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